19 de jun de 2010

José Saramago, senhor polêmica (parte 2)

O escritor português guardava a certeza de que o homem inventou Deus unicamente porque a morte era a verdade suprema. “Se fôssemos imortais não teríamos nenhum motivo para inventar Deus. Para quê? Nunca o conheceríamos!”, ponderou em entrevista ao jornal espanhol El País, em outubro do ano passado.

Saramago nunca teve educação religiosa nem acreditava em Deus, mas foi nessa seara que protagonizou algumas das polêmicas de maior repercussão da literatura portuguesa contemporânea. Ele disse que Jesus Cristo era filho de José e não de Deus. Por isso, recusou-se a escrever um texto para abrir o livro O evangelho segundo Jesus Cristo.

Temas bíblicos voltaram à agenda com Caim, último romance do escritor. Dessa vez, foi acusado de antissemita. Na versão de Saramago, o assassinato de Abel pelo irmão Caim tem como mentor intelectual o próprio Deus.

O escritor não foi criado em família católica, mas admitia estar naturalmente contaminado pelos valores cristãos. “Ateu é apenas uma palavra. No fundo estou impregnado de valores cristãos (…). Aceito. Agora, tudo que tem a ver com um Deus superior e eterno, que um dia me condenará, me parece uma bobagem”, disse, em entrevista durante o lançamento do livro. Crítico voraz da Igreja Católica, chegou a acusar o papa Bento XVI de cínico. Coincidentemente, ele dizia, o cristianismo trazia os mesmos valores humanistas que nortearam sua vida política.

Primeiro autor de língua portuguesa a receber o Nobel de Literatura, José Saramago morreu ontem aos 87 anos após complicações decorrentes de uma doença respiratória e falência múltipla dos órgãos.

Fonte: Correio Braziliense, Diversão e Arte, pág. 1, 19/6/10.

Nenhum comentário:

Postar um comentário