29 de set de 2010

Correio Braziliense publica artigo sobre Dia do Gordo. Confira meu depoimento

Crônica da Cidade


“Esse corpo não te pertence”
Por Chico Neto

Simpático e-mail da leitora Denise Santana chega lembrando que hoje é o Dia do Gordo. “Que graça tem isso?”, pondera ela, atentando que, na ponta do lápis, a situação obesidade não merece glamourização. Denise defende essa bandeira com toda a propriedade. Exobesa, chegou a pesar 185 quilos, dos quais 103 se foram a partir de uma cirurgia de redução de estômago. “A minha vida mudou para melhor”, conta. Ela quer compartilhar sua conquista de qualidade de vida. E certamente sabe que a redução estomacal não é indicada para todos.

Mas Denise insiste no alerta: “Falta consciência de que a gordura é uma doença e falta também força de vontade para mudar. Isso é mais difícil ainda porque, sem decisão própria, não se chega a lugar algum”. Ela fala em nome das pessoas que ultrapassaram o peso, sofrem com isso e não conseguem tomar uma atitude em favor da própria felicidade.

Pelo contrário: em situações assim, quem costuma dar as ordens é a ansiedade, determinando, de imediato, o aumento de um apetite que já era voraz e, muitas vezes, a preferência por alimentos calóricos e nocivos.

Não bastassem as estatísticas provando que acúmulo de gordura é caminho para uma vida comprometida, há o fator que, para muitos de nós, também tem lá seu peso nessa história: a estética. Não estou falando da ditadura da magreza, mal que acomete a indústria da moda.

Refiro-me ao incômodo que, diante do espelho, tantos gordinhos e gordinhas desse mundo experimentam várias vezes na vida, ao perceberem que estão perdendo a conta da própria forma. E esse também é ou deveria ser um fator considerado na filosofia do Dia do Gordo.

Quando Jorge Mautner diz, em Lágrimas negras, que “belezas são coisas acesas por dentro”, isso serve para compreender a questão dos obesos: o que vai mal por dentro também vai por fora.

Lembrei-me de minha mãe—que justamente hoje, no Dia do Gordo, se fosse viva, estaria completando 74 anos. Nunca chegou a ser obesa, mas desassossegava toda vez que percebia uns quilinhos extras. E tinha um termômetro infalível para se dar conta desse acréscimo.

Ficava arrepiada quando alguma pessoa lhe dizia: “Marisa, você está bonita, fortona!”.

Era a hora de queimar calorias. “Fortona não, pelo amor de Deus! Nem bonitona.Acho horrível!”, dizia.

Obesidades doentias e desalinhos da forma física à parte, existem gordinhos e gordinhas felizes com sua condição. O conjunto adiposo chega a fazer parte da beleza dessas pessoas. Admiro cada uma das que conheço nessa condição. E conheço gente que conseguiu emagrecer e perdeu o viço: o formato original compunha uma estrutura de felicidade geral da qual a pessoa nem se dava conta.Mas a chamada de Denise Santana é oportuna.

Traz esperança a quem desenvolve ansiedade e foge da gordura quando a gordura representa perigo para a saúde.

Mais que isso, a mensagem dessa exobesa abre um rasgo de otimismo quando ela prova que qualquer um de nós pode mudar, desde que queira.Mudanças voluntárias costumam ser emissárias de bons ventos. E a felicidade, enfim, só se instala na vida de quem lhe dá a devida autorização para entrar em casa sem precisar bater à porta.

Correio Braziliense, página 32, caderno Cidades, coluna Crônica da Cidade, 10 de setembro de 2010.

Site: http://buscacb2.correioweb.com.br/correio/2010/09/10/AXX32-1009.pdf

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