17 de set de 2010

Suicídio: Mortes silenciosas e silenciadas

A sociedade deve entender o comportamento suicida como um grito de dor e um pedido de socorro.

A favor da vida. Essa é a posição da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) ao debater o tema Comportamento suicida: Conhecer para prevenir. Em uma campanha, por meio do programa ABP Comunidade, psiquiatras explicam à população os cuidados em relação ao ato de tirar a própria vida, como prevenir o problema e ainda sobre saúde mental. A Associação promoveu o debate no dia 6 de setembro, em parceria com o Pátio Brasil Shopping. Também participaram representantes da Defesa Civil e do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT).

O tema é tabu, mesmo para a sociedade do século 21 que dispõe de maior acesso à informação. Mas muita informação não significa, necessariamente, conhecimento. É por meio do debate que se gera mais consciência, sendo possível alcançar a prevenção.

O Dr. Neury Botega, psiquiatra, professor titular de Psicologia Médica e coordenador do Laboratório de Saúde Mental e Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador da Comissão de Prevenção de Suicídio da ABP, foi o responsável pela palestra que explicou à imprensa como tratar o assunto com mais sensibilidade e também às pessoas, de modo geral, como agir para prevenir.

De acordo com o psiquiatra, tanto a família quanto a pessoa que tenta tirar a vida mas que não concretizam o ato buscam esquecer a questão. Querem apagar as dores e a ação em si. “As pessoas tentam colocar fora da história da vida o suicídio. Mas precisamos conversar sobre ele, pois estamos falando não de morte, como muitos pensam. Mas, sim, de vida”, esclarece o médico que alerta ainda que os que tentaram suicídio, mas na atingiram o objetivo, merecem atenção redobrada.



As causas

O Dr. Neury Botega diz que o ato suicida está associado aos transtornos mentais.

A depressão, por exemplo, pode levar ao suicídio. Um dado apresentado pelo médico é que 15% das pessoas que têm depressão grave cometem se matam.

Álcool e drogas também agravam a questão. Em 23% dos casos, de acordo com Botega, a pessoa está alcoolizada ou sob efeito de substâncias. Os transtornos mentais de humor bipolar e esquizofrenia aparecem nos casos.

Toda pessoa que põe fim à vida tem problema mental? Nem sempre. Também não é possível afirmar que todas as pessoas que têm problema mental vão se suicidar. Mas os médicos afirmar que a doença mental é forte fator de risco. Então, como fazer uma prevenção universal? A resposta o próprio médico aponta, o que não significa que seja simples alcançá-la: conscientização e redução do acesso aos meios letais, com controle de armas e de medicação, por exemplo. Esses são alguns meios viáveis. Também pode ajudar na prevenção identificar as pessoas deprimidas, o isolamento, quem sempre faz ameaças. É muito importante observar o comportamento da pessoa e dialogar com amor e compreensão.



No Brasil

Ao traçar o perfil de alguém que se suicida, percebeu-se que os jovens são as maiores vítimas.

Outro dado que chama a atenção das autoridades de saúde são os números. São 24 atos suicidas por dia. Ou seja, uma pessoa se mata a cada hora no Brasil. O Rio Grande do Sul é o estado com maior número de casos.



Em Brasília

Durante muitos anos a Torre de TV foi um ponto no qual as pessoas recorriam quando a intenção era tirar a própria vida. No total, a torre tem 224 metros. A 75 metros de altura possui um mirante, com capacidade para 150 pessoas. As visitas são diárias pois o local é um ponto turístico da Capital.

Depois de várias ocorrências de suicídio, as autoridades posicionaram-se a favor da construção de uma grade mais alta que impede que a pessoa se lance.

Recentemente, outro ponto na cidade tornou-se foco do problema. O Pátio Brasil Shopping já registrou 13 casos de suicídio nas áreas interna e externa. Com um fluxo de 55 mil pessoas por dia, as conseqüências do ato poderiam ser ainda mais graves. “Analisamos as imagens e vimos que demora apenas quatro minutos da entrada da pessoa no shopping até ela se jogar dos andares mais altos”, disse Leonel Taffarel, superintende do shopping.

A direção do Pátio Brasil tomou a decisão de fechar com vidros o terceiro e quarto andares para evitar que as pessoas se lançassem, caindo no térreo. Na área externa as obras ainda não foram concluídas por causa de dois embargos realizados pela Agência de Fiscalização do DF (Agefis). De acordo com Taffarel, os embargos foram determinados mesmo depois de projeto apresentado ter sido aprovado pelas autoridades públicas. Na reunião de conciliação estavam presentes representantes do Pátio Brasil, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil do DF, promotores e procuradores de Justiça. Até o momento, a superintendência do shopping espera uma resposta da Justiça, pois recorreu da medida junto ao TJDFT.



No mundo

Parece difícil de acreditar, mas, a cada 35 segundos, uma pessoa morre por ato suicida no mundo. China, Índia, Rússia, Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Ucrânia e Sri Lanka lideram o ranking mundial.

O suicídio e a depressão custaram US$ 32 bilhões ao Japão no ano passado, quando 32 mil pessoas se suicidaram, com idade entre 15 e 69 anos.

É a primeira vez que o governo japonês divulga esse tipo de dados, baseado em levantamento nacional que somam custos como renda perdida, tratamentos e benefícios sociais.

Autoridades afirmam que, entre as causas, estão a perda do emprego e a má situação financeira. Fonte: BBC Brasil



Diante da lei

De acordo com a legislação brasileira (Código Penal Brasileiro, artigo 122) é crime contra a vida induzir, instigar (incitar, provocar) ou auxiliar uma pessoa a tirar a vida.

As penas são duas: Reclusão (de dois a seis anos) se o suicídio se consuma; e reclusão (de um a três anos) se da tentativa de suicídio resultar lesão corporal grave.

A pena é duplicada se o crime é praticado por motivo egoísta; se a pessoa é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.

Roberval Casemiro Belinati, desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, explicou na palestra que o patrimônio da pessoa que se suicida pode responder pelo problema.

O desembargador estudou mais a fundo o assunto depois que presenciou, ao lado de sua família, um rapaz se jogar do quarto andar do Pátio Brasil.



À luz das Sagradas Escrituras

A Bíblia não trata do suicídio como tema especial. Relata casos de pessoas que se suicidaram, como Judas. Ou que pensaram em suicidar-se, como o carcereiro. Também existem textos que relatam a história da morte de Saul, que se lançou sobre a sua própria espada.

Como se percebe, nenhum dos versículos comenta sobre pecado ou perda da salvação.
Na verdade, há um consenso doutrinário nas igrejas evangélicas, herdado da igreja católica, sobre esse tema. Por isso, muitas pessoas associam suicídio a morte eterna, a perda da salvação. Mas a Bíblia não relata sobre esse ponto.

O que está escrito acima, não significa que a autora/repórter defenda a pessoa que tira a própria vida. Não é um incentivo para as pessoas se matarem. A defesa tem que ser sempre pela vida, que é um dom divino. É apenas uma observação de que uma afirmação que liga suicídio ao inferno não tem registro bíblico. As pessoas devem preservar o santuário de Deus, conforme está registrado em I Co. 3:17.

Uma das preocupações das igrejas atualmente é o cuidado com a família que passa por profunda dor por causa da perda. Nesses casos, cabe à igreja ajudar os familiares. Andar junto com a família, em amor, consolando-a. Esse deve ser o trabalho dos líderes que devem ajudar para que cada familiar possa continuar levando a vida, apesar da dor. Tem que caminhar junto.

A Bíblia traz alguns conselhos para as pessoas que atravessam problemas. Incentiva, até mesmo, que as pessoas devem pedir ajuda, compartilhar as necessidades, ter esperança, ser paciente diante dos desafios e das dificuldades. Desistir não é o melhor caminho.

O exemplo está em Romanos 12:11-13 que afirma: “Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor; alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração; comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade”. Outro texto que incentiva a ser firme e passar pelas dificuldades está em Tiago 1:12-16: “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam. Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte. Não erreis, meus amados irmãos”.

Os judeus – Há tempos atrás, a prática de enterrar as pessoas que tiravam as suas próprias vidas em local separado nos cemitérios judeus era muito comum, já que na condição de suicidas lhes eram negados alguns rituais da cerimônia de enterro. Atualmente essa prática mudou. De acordo com Abrahan Moysés Melul, diretor religioso da Associação Cultural Israelita de Brasília, hoje existe o entendimento de que a pessoa que comete suicídio não está no gozo pleno de suas faculdades mentais e até mesmo pode sofrer de alguma enfermidade grave, que tira do suicida a compreensão plena do ato que está praticando. “Não se faz diferença no ritual de enterro de uma pessoa que morreu de causas naturais e/ou acidente daquele que cometeu suicídio”, enfatiza Abrahan.

Apesar de não fazer mais distinção das pessoas no momento do sepultamento, o judaísmo tem como regra que só Deus pode conceder e tirar a vida de alguém. Desse modo, o suicídio seria um pecado grave contra Deus, uma negação de que a vida é um dom divino. A idéia que prevalece na cultura judaica é a de usar o benefício da dúvida quanto ao suicídio em si, já que na maioria das vezes é um ato praticado a sós, sem testemunhas. “Será que o suicida tem realmente a noção exata do ato que está praticando? Busca-se, de todas as formas, não fazer nenhum tipo de diferenciação entre as pessoas hoje”, diz Abrahan.

Os católicos – A Igreja Católica não realizava missa de corpo presente nem mesmo missa de sétimo dia para as pessoas que cometiam suicídio. A legislação canônica, promulgada pelo papa Bento XV, em 1917, dizia que as pessoas que tirassem a própria vida deveriam ser excluídas da sepultura eclesiástica e também da missa exequial (missa de corpo presente). Também era negada a missa pelo aniversário ou ofícios fúnebres públicos.


Em 1983 essa legislação mudou. Foi promulgado o novo Código de Direito Canônico, pelo papa João Paulo II. As regras mudaram. Agora os padres podem fazer a missa para todos, sejam suicidas ou não.

O padre Valdir Mamede, da Paróquia Imaculado Coração de Maria, no Park Way, esclarece a posição dos católicos a respeito do suicídio.

De acordo com Mamede, o catecismo da Igreja, promulgado na Constituição Apostólica Fidei depositum, pelo papa João Paulo II, de 1992, afirma que cada pessoa é responsável por sua vida diante de Deus que é o doador e único Senhor. E que as pessoas devem receber a vida com reconhecimento e preservá-la para a sua honra e a salvação de suas almas. “Somos administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela. O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo. Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida. Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida”, enfatizou o padre, citando a Constituição Apostólica.

Referências bíblicas sobre suicídio:

Morte de Judas por enforcamento: Mateus 27:5

Tentativa de morte do carceceriro: Atos 16:27

Morte de Saul: I Samuel 31:4

Morte de Aitofel - II Samuel 17:23


Morte de Zinri, depois que colocou fogo na casa do rei - I Reis 16:18




Fique por dentro

10 de setembro – Dia Mundial de Prevenção do Suicídio

Tema de 2010: Muitas faces, muitos lugares, prevenção do suicídio ao redor do mundo



Busque ajuda

Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

http://www.abpbrasil.org.br

Manual de imprensa da ABP:

http://www.abpbrasil.org.br/sala_imprensa/manual/img/Cartilha_ABP_2009_light.pdf

Cartilha Comportamento suicida: Conhecer para prevenir:

http://www.abpbrasil.org.br/sala_imprensa/manual/img/CartilhaSuicidio_2009_light.pdf

Cadastre-se e receba aviso sobre o lançamento da Cartilha Saúde Mental e Direitos Humanos:

http://www.abpcomunidade.org.br/cartilhas/cartilha/cadastro

Organização Mundial de Saúde

http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/suicideprevent/en/

Ministério da Saúde

http://portal.saude.gov.br/portal/saude/cidadao/visualizar_texto.cfm?idtxt=25605



Depoimentos

“Nos meus 32 anos de bombeiro na área de salvamento, tínhamos sempre ocorrências sobre suicídio. A nossa preocupação é com as áreas públicas onde podemos interferir para evitar o problema. Já mapeamos os pontos em Brasília onde estão acontecendo o maiores números de ocorrências.”

Cel Luiz Carlos Ribeiro, subsecretário da Defesa Civil do DF



“Temos que divulgar os casos com conotação preventiva. Mais divulgação significa mais prevenção para as famílias. A prevenção pode salvar muitas vidas. Os shoppings e edifícios podem responder civilmente caso se prove que ouve falha na segurança, por exemplo. Por isso, a responsabilidade sobre o problema é de todos.”

Roberval Casemiro Belinati, desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal

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