26 de jan de 2012

A transmissão ao vivo na TV

Jornalistas Ana Paula Padrão e Celso Freitas

O Jornal da Record estava em andamento ontem, 25 de janeiro, ao vivo, quando a apresentadora Ana Paula Padrão leu a nota do desabamento de um prédio comercial no Rio de Janeiro.

O texto narrado dizia: “E atenção! Um prédio comercial desabou parcialmente agora a pouco no centro do Rio de Janeiro. O edifício, de 18 andares, fica na Rua 13 de maio. Essas são imagens ao vivo da Sete Rios, a companhia de engenharia de tráfico do Rio de Janeiro. Ainda não há informação de feridos. Os bombeiros ainda estão indo para o local. Já há alguns carros, você vê, tentando descobrir o que aconteceu. O prédio fica perto do Teatro Municipal, no centro do Rio de Janeiro. Testemunhas, segundo o jornal O Dia, dizem ouvir pedidos de socorro vindos do prédio. Outras informações daqui a pouquinho. O nosso helicóptero, o helicóptero da Rede Record está seguindo para o local e voltaremos nesta edição, com novas informações, sobre o desabamento desse prédio no centro do Rio de Janeiro.”

Após a informação, o noticiário continuou. Minutos depois, Ana Paula e Celso Freitas voltam a comentar sobre o acidente, agora mostrando imagens feitas pelo repórter cinematográfico da emissora que estava a bordo do helicóptero. Uma repórter, que foi rapidamente para o local, também entrou ao vivo pelo telefone, mas trazia poucas informações porque a apuração dos fatos ainda estava iniciando. Outro cinegrafista também mostrou imagens ao vivo das ruas próximas ao local. Era o link que vai ao local de motocicleta em busca de informações rápidas.

O que se aprende com uma transmissão ao vivo em um momento de crise?

O texto é redigido sempre no presente, mostrando ação contínua. É usado o gerúndio.

Sempre há poucas informações no momento em que o acidente acontece, sendo mostrado em tempo real na TV. Por isso, as informações são incompletas, muitas vezes desencontradas. Outras vezes pode ser informação falsa. É difícil saber se todas as informações são verídicas porque o tempo foi pequeno para maiores apurações.

A imagem é forte, mas o texto não informa na mesma proporção. Por isso, os jornalistas sempre ficam fazendo suposições (achismo), usam palavras dramáticas, beirando o sensacionalismo. Nada confirmado, informações vazias para sustentar as imagens no ar, ao vivo, para o Brasil e o mundo assistirem.

Ana Paula Padrão comentou sobre o desabamento, narrando as imagens que via, com palavras como “eu imagino”, “eu suponho”. Jornalista não imagina nada. Também não supõe. Jornalista dá a informação correta. Não se dá opinião na narração de fatos. Opinião é dada em artigo ou editorial da empresa. Fatos, como o desabamento que aconteceu, o jornalista apenas narra. Conta a história baseada no que vê, no que apura nas entrevistas com os personagens que vivenciaram os fatos, com as autoridades responsáveis. Jornalista não pode “supor” simplesmente porque não tem informações concretas para transmitir ao vivo na TV. Isso é adivinhação. Jornalista não adivinha. Apura fatos.

Todos sabem que os detalhes não estão disponíveis logo após uma crise. É preciso tempo para apuração. Mesmo assim, é aconselhável dar o máximo de informações possível. A imprensa sempre escolhe esse caminho. Transmite-se a informação que chega à redação, apura-se depois.

Mas como imagem é tudo na telinha, a direção do jornal e da TV acredita que vale a pena permanecer transmitindo-a. Posteriormente, corre-se o risco de responder por informações erradas, incompletas. Corre-se o risco de prejudicar a imagem de pessoas, empresas, instituições. Isso pode levar a problemas judiciais.

As autoridades falam pouco em momentos de crise, até porque precisam prestar socorro às vítimas e tentar garantir o patrimônio público ou privado afetado. Até as próprias autoridades (polícia, bombeiro, governo) tem pouca informação confiável nos momentos breves após o acidente. Em momento de crise o socorro às pessoas é prioridade. A imprensa pode esperar.

A imprensa não se preocupa em se retratar caso dê alguma informação incorreta. Em outros jornais da mesma emissora segue com novas informações, muitas vezes mais bem apuradas (porque com mais tempo há maior apuração) e não diz que deu uma informação errada ou parcialmente errada. Quem ouviu a informação errada e assistiu às imagens propagará o erro, pois a maior parte da população acredita no que é dito pelos jornalistas. A TV é a maior fonte de informação no Brasil, um país que lê pouco. O público lembra do que foi dito nas primeiras horas após um incidente, o que torna essencial uma resposta imediata. Mas essa informação deve ser correta.

Ana Paula Padrão, por exemplo, comentou sobre uma explosão no prédio, com cheiro de gás. Depois, testemunhas deram entrevista afirmando que não houve explosão. Que o prédio desabou de baixo para cima. O barulho foi do próprio edifício caindo. Os bombeiros disseram que não houve vazamento de gás e nem cheiro havia. Mas a jornalista, e nenhum outro repórter que foi posteriormente ao local, consertou a informação errada. Ficou por isso mesmo, como se todas as informações narradas no primeiro momento fossem verdadeiras, dignas de credibilidade e bem apuradas. E as informações erradas foram transmitidas ao vivo, em horário nobre, na segunda emissora de maior audiência do país. Essa notícia ficou no ar por mais de 15 minutos, com imagens fortes, mas desprovidas de texto com informações concretas. Apenas Ana Paula – e algumas vezes Celso Freitas, repetindo as mesmas informações já lidas na primeira nota (veja o texto acima) e falando palavras sensacionalistas e informações desencontradas que depois não foram confirmadas.

Os jornalistas precisam ter mais cuidado nas transmissões ao vivo. Credibilidade é tudo. Informação correta é o que leva a manter essa credibilidade.


Assista a primeira narração de Ana Paula Padrão. A segunda reportagem, que foi transmitida ao vivo por mais de 15 minutos, não foi disponibilizada no portal da emissora.

http://noticias.r7.com/jornal-da-record/noticia/parte-de-predio-comercial-desaba-no-centro-do-rio/

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