9 de abr de 2014

Manifestação contra estupro

Mulheres e homens uniram-se contra violência sexual. A manifestação aconteceu dia 5 de abril, em Brasília, e contou com a participação de 80 pessoas, de acordo com a Polícia Militar.

O movimento faz parte da campanha “Não mereço ser estuprada” que surgiu nas redes sociais, contestando a pesquisa intitulada “Tolerância social à violência contra as mulheres”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que afirmou que 65% dos entrevistados concordaram com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

Dias depois de publicada a pesquisa, o Ipea divulgou nota admitindo que errou e afirmando que, na verdade, 26% dos entrevistados concordavam com a afirmativa (e não 65% como fora inicialmente divulgado).

O estudo também revelou que 35% dos entrevistados afirmaram que “se as mulheres soubessem como se comportar haveria menos estupros”. A pesquisa ouviu 3.810 pessoas, entre maio e junho de 2013, em 212 cidades. Dos entrevistados, 66,5% eram mulheres.

A concentração dos ativistas aconteceu no Museu da República. Depois, em marcha, fecharam uma das pistas da Esplanada seguindo em direção à plataforma inferior da Rodoviária.
Em marcha, manifestantes saíram do Museu da República em direção à Rodoviária

Foi uma tarde democrática. O microfone foi aberto e todos tiveram a oportunidade de se manifestar pacificamente. Os discursos foram em tom crítico, mas respeitoso. Com cartazes, corpo pintado e palavras de ordem, os manifestantes gritavam frases como “vem pra luta contra o machismo”; “o corpo é meu, a cidade é nossa”; “ninguém merece ser estuprado”; “a culpa do estupro é sempre do estuprador. A culpa não é da vítima”; “enquanto houver 26% de covardes, haverá 100% de luta”; “queremos zero por cento”; “machismo mata”.

O movimento, que também aconteceu em outros estados brasileiros como Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, surgiu a partir da campanha on-line da jornalista Nana Queiroz que publicou, em seu perfil do Facebook, uma fotografia com a frase “não mereço ser estuprada”. Ao fundo da imagem, o Congresso Nacional. A página na rede social contra o estupro teve tanto sucesso que contou com o apoio da presidente Dilma Rousseff. Os anônimos também se somaram ao clamor. Foram mais de 10 mil curtidas em poucas horas. Admirada com a grande repercussão da campanha, Nana Queiroz enfatizou, em entrevistas concedidas à imprensa brasiliense, que as redes sociais são uma boa ferramenta para mobilização.

Em uma mensagem publicada esta semana no Facebook, Nana postou um adesivo criado pelo Instituto Maria da Penha. O adesivo é para ser colado nas vitrines das lojas que roupas femininas e afirma que “26% não é desconto. É a quantidade de gente que acha que o jeito da mulher se vestir justifica o estupro. O número mudou, mas ainda é absurdo. Essa moda tem que acabar”. Em outro post, a jornalista diz que “o maior erro não está nos números do Ipea, mas na cabeça de milhares de brasileiros”. Nana incentiva que as pessoas curtam e compartilhem o adesivo do Instituto.

O espaço para as manifestações nas redes sociais é realmente democrático. O Facebook que o diga. Na hashtag #nãomereçoserestuprada participaram desde pessoas sem vínculo ideológico ou partidário até movimentos organizados. Várias fotografias foram postadas sobre a manifestação em Brasília.

A publicação de Tais Carine afirma: “eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente com a roupa que escolhi. E poder me assegurar que de burca ou de shortinho todos vão me respeitar”. Os homens também aderiram ao protesto. Almir Rosa publicou que apoia totalmente a manifestação contra o estupro. Fabiana Ferraz enfatizou que “o lance do #nãomereçoserestuprada virou meme porque a pesquisa do Ipea estava errada. Acho que as pessoas se esqueceram que, apesar da farofa feita por um monte de gente querendo aparecer nas redes sociais, isso é sério. Falar de estupro nunca é engraçado. Pelo contrário: é sempre sombrio. Toda mulher tem medo de ter sua intimidade invadida, independentemente de usar saia longa, blusa fechada, short curto, se volta para casa cedo ou tarde, se tem uma ocupação digna ou de caráter duvidoso, se é rica ou pobre. Nenhuma mulher merece isso”.
Manifestação na Rodoviária

A preocupação faz sentido porque os números do desrespeito às mulheres são grandes. O Distrito Federal registrou média de dois estupros por dia (dados de janeiro e fevereiro deste ano). Mais da metade das vítimas são crianças e adolescentes. As mulheres também são alvo desse crime, sendo Ceilândia a região administrativa com maior registro de ocorrências, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.



Mas os números são maiores. Na realidade, nem todos os casos de estupro são registrados nas delegacias. O que pode impedir a vítima de denunciar o agressor? A vergonha e o medo de represálias são apontados como fatores que ajudam os criminosos a ficarem impunes. O pior: muitas vezes os criminosos fazem parte do vínculo de amigos ou parentes. Sabe-se que estão bem próximos das vítimas. São pais, irmãos, amigos. Esse é outro fator que pode impedir que a pessoa agredida denuncie o agressor.

A manifestação conta o estupro foi bem divulgada nas redes sociais e recebeu a cobertura da imprensa local. Jornais, TVs e rádios marcaram presença registrando cada discurso, ouvindo a opinião das pessoas. Um barulho positivo para mostrar que o Brasil ainda precisa avançar no combate à violência contra a mulher.

Imprensa presente na manifestação contra o estupro, em Brasília

Texto e fotos: Denise Santana, jornalista, professora e teóloga

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