7 de mai de 2014

Aconteceu o 6º Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia: a imprensa corre risco? E a sociedade?

Jornalistas discutiram sobre censura e violência, durante 6º Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia, organizado pelo “Portal Imprensa” que aconteceu em 6 de maio, no auditório da Imprensa Nacional, em Brasília.

Participaram do fórum representantes do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, criado nos Estados Unidos em 1981, para fazer alerta sobre ameaças ao livre exercício da profissão. María Teresa Ronderos e Carlos Lauría entregaram documento para a presidente Dilma Rousseff com estatísticas sobre jornalistas mortos no País. De acordo com relatório do Comitê, de janeiro de 2011 até agora, 12 jornalistas foram mortos em consequência de seu trabalho. O relatório nomina as vítimas. Foram mortos: Mario Randolfo Marques Lopes (Vassouras na Net, Rio de Janeiro); Rodrigo Neto (Rádio Vanguarda e Vale do Aço, Minas Gerais); Décio Sá (O Estado do Maranhão e Blog do Décio, Maranhão); Valério Luiz de Oliveira (Rádio Jornal, Goiás); Eduardo Carvalho (Última Hora News, Mato Grosso do Sul); Mafaldo Bezerra Goes (FM Rio Jaguaribe, Ceará); Luciano Leitão Pedrosa (TV Vitória e Rádio Metropolitana FM, Pernambuco); Edinaldo Filgueira (jornal O Serrano, Rio Grande do Norte); Gelson Domingos da Silva (TV Bandeirantes, Rio de Janeiro); Walgney Assis Carvalho (freelance, Minas Gerais); Santiago Andrade (Bandeirantes, Rio de Janeiro); e Pedro Palma (Panorama Regional, Rio de Janeiro).

O mesmo relatório aponta que a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) registrou 163 violações contra a liberdade de imprensa envolvendo 152 jornalistas entre maio de 2013 e março de 2014. Outro dado que merece destaque é que o Brasil ocupa o 11º lugar no ranking mundial de morte de jornalistas em trabalho. Clarinha Glock, representante da ABRAJI, comentou que está produzindo um guia prático que dará dicas importantes de segurança para as equipes de imprensa que estão nas ruas trabalhando. A preocupação mais urgente é com o possível aumento da violência na Copa do Mundo.

Várias ações precisam ser tomadas pelo governo para garantir a segurança dos profissionais. Carlos Lauría escreveu que o governo de Dilma Rousseff tomou algumas medidas contra o problema de ataques a jornalistas como a criação a um grupo de trabalho que investigou os fatos. “Agora que o grupo divulgou seu relatório, a questão é se o governo vai ou não implementar suas recomendações e, caso sim, como e com que rapidez", diz Carlos em texto publicado no relatório. Outras medidas precisam ser adotadas com urgência como a inclusão de jornalistas sob ameaça no Programa Nacional de Proteção dos Defensores dos Direitos Humanos; atuar para aprovação de reformas na lei que tornem federais os crimes contra a liberdade de expressão; desenvolver procedimentos e treinamento para garantir que jornalistas possam atuar em manifestações relativas a Copa do Mundo.

A Copa está chegando e várias manifestações podem acontecer. É preciso garantir a tranquilidade da população e o direito dos jornalistas trabalharem nas ruas. É preciso garantir a liberdade de imprensa.

Os problemas vão além dos assassinatos encomendados por causa do trabalho investigativo. Ainda existe a preocupação da agressão da população nas ruas. Um exemplo foi a violência que as equipes sofreram durante as manifestações sociais. A jornalista Cristina Serra, da Rede Globo, comentou sobre o problema. Disse que manifestações sempre aconteceram no Brasil e isso não é novidade. Mas a diferença é que antes a imprensa era vista como aliada, como representante da sociedade. Agora, durante algumas manifestações, os jornalistas não foram bem-vindos. Muitos foram hostilizados. “Antes o povo era a favor da imprensa, a via como representante, mediadora social. Só a Polícia não gostava. A diferença hoje é que ninguém gosta”, disse Cristina Serra, em relação à indiferença da população para com a imprensa durante as manifestações sociais.

Por que jornalistas estão sendo agredidos nas ruas? A sociedade está contra a imprensa? Essas foram algumas perguntas debatidas. Clarinha Glock disse que atualmente a sociedade está fazendo justiça com as próprias mãos, as questões sociais estão sendo tratadas como policias e não políticas, na internet há muitos questionamentos sobre a imprensa e a sociedade não se vê representada porque existe a ideia de que a imprensa manipula a notícia.
Jornalistas: Milton Blay, Cristina Serra, Denise Rothenburg, Ricardo Gandour e Eliane Cantanhêde

A jornalista Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo, comentou que, “quando grandes líderes incita a população contra a imprensa, isso faz mal para a sociedade”. Deu o exemplo do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Mostrou como era Lula antes e depois. Antes, a imprensa era bem-vinda quando cobria os eventos realizados pelos metalúrgicos dos quais Lula participava. A imprensa era amiga. Depois que ele trocou de lado, tornou-se parte do poder, a imprensa não é mais aliada, não é boa. Eliane mostrou que a imprensa sempre esteve do mesmo jeito, fazendo papel crítico em relação aos governos. Quem mudou de lado foi Lula que agora critica os jornalistas que discursa contra, que agora mostra que a imprensa não é mais bem-vinda.

Realmente a classe deve se preocupar com o assunto uma vez que nas últimas manifestações no Brasil vários profissionais foram feridos (tanto por vândalos quanto pela Polícia Militar), outros ameaçados, outros mortos e carros dos jornais foram queimados.

Familiares de jornalistas assassinados participaram do debate. Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975 durante a ditadura militar, marcou presença. Disse que levou 34 anos para conseguir debater de maneira tranquila sobre a morte do pai. Depois, claro, de fazer muitas análises. “A cicatriz não desaparece nunca. Faz parte da gente. Temos que entender a violência como uma crise de valores pela qual a sociedade atravessa. A violência contra os jornalistas é uma fatia dessa violência geral. Não podemos acreditar nas pessoas que pensam que a violência é uma maneira de se garantir a justiça. Não podemos resolver os problemas com violência. Temos que pegar essa cicatriz que nos puseram e que ficará conosco para sempre para melhorar a sociedade. Assim nosso luto ficará mais leve”, disse Ivo Herzog.

Tânia Lopes Muri, irmã do jornalista da Rede Globo Tim Lopes, assassinado no Complexo do Alemão, em 2 de junho de 2002, disse que a confirmação da morte do irmão veio pela televisão, de uma forma como ela sempre pensava que era difícil para uma família receber o anunciado sobre o falecimento de um ente querido. Em seu depoimento, carregado de emoção, Tânia disse que a luta é diária e solitária para que a memória de Tim não se apague e para que a violência termine. “Falar do Tim é lidar com a dor toda novamente”, disse. Mas ela afirmou que Tim morreu dizendo que estava fazendo seu trabalho. Ele morreu falando o quanto gostava do Jornalismo. Isso dá forças para que a família permaneça lutando. Inicialmente, quando ninguém sabia o que tinha acontecido com o jornalista, a família acreditava que ele sobreviveria, que seria liberado pelos traficantes. Mas confirmada a morte, feito o sepultamento, sobrou para cada um viver a sua dor. Não foi fácil. As consequências da morte foram duras. A mãe de Tim teve dois enfartos, um irmão sofreu síndrome do pânico. Cada familiar viveu de uma maneira o luto. A decisão que Tânia tomou para si mesma foi lutar contra a violência e a favor da vida. Por isso não deixa a memória de Tim Lopes ser esquecida. A cada ano, no dia 2 de junho, faz algum evento e recebe ajudas importantes. Uma escola e avenidas receberam o nome do jornalista, outdoors já foram espalhados pela cidade lembrando o ocorrido e um documentário, intitulado “História de Arcanjo”, foi produzido sobre a vida e a obra do profissional. Entidades de classe e a imprensa apoiam os projetos desenvolvidos por Tânia. Famílias vítimas de violência também se aproximam para dialogar. É uma luta solitária, mas constante. “O assassinato de Tim foi sua última reportagem”, disse.
Tânia Lopes, Vanessa Andrade, Ivo Herzog, Sinval Leão e Valério Luiz

Outra participante do Fórum foi Vanessa Andrade, assessora de imprensa do Polícia Militar, filha do cinegrafista Santiago Andrade, morto aos 49 anos, no Rio de Janeiro, em 6 de fevereiro deste ano, vítima de um rojão lançado por manifestantes. Vanessa disse que era a primeira vez que falava abertamente sobre a morte do pai e que não se sentia ainda preparada para isso. Muito emocionada, disse que se lembra bem da cena que viveu no hospital quando recebeu a aliança de Santiago e a camisa vermelha cheia de sangue e de massa encefálica que ele vestia no momento que foi atingido pelo rojão. Criticou os Black Bocs e afirmou que vai lutar contra toda essa violência, mas ainda não sabe como porque os fatos são muitos novos. Na verdade, a dor do luto ainda está muito viva na vida de Vanessa e da família. “Perdi meu pai e minha mãe não dorme mais, não come direito. Também perdi o sorriso dos meus avós que me criaram”, disse. A vida virou de cabeça para baixo.

Texto: Denise Santana


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