12 de jan de 2015

Sobre chargistas e terroristas (revista Charlie Habdo)

Eu defendo liberdade de imprensa e de expressão. Jamais defenderia a censura. Sou comunicadora.
No caso do atentado terrorista à revista Charlie Habdo, em Paris, penso que ambos os lados estão errados.

Os jornalistas porque fazem piada com a religião alheia. Os terroristas porque são terroristas e matam. Vamos voltar à barbárie? Não somo civilizados? É jogando bomba que se resolve desentendimentos? Isso não é religião. Eles são criminosos.

Muitos jornalistas e chargistas andam falando em liberdade de expressão. Eles acham que são donos do mundo? Não existe cem por cento de liberdade, não. Qual o limite? A lei, claro. O bom senso, a tolerância, a coexistência e o respeito também devem ser observados. Por que é preciso a lei? Para estabelecer onde cada um pode chegar. Porque tem gente que respeita o outro, mas tem gente que não respeita. Por isso é necessário estabelecer regras sociais que normatizem até onde cada um pode chegar. Assim, somente com a lei, quem se sentir desfavorecido tem como correr atrás de seus direitos.

Por que os muçulmanos deveriam gostar das charges (piadas) da revista? Ninguém aceita fazer gracinha com a sua fé. Se falassem mal de Jesus, os cristãos iriam reclamar. Se falassem mal de Buda ou Allan Kardec, os budistas e espíritas não iriam gostar. Por que os muçulmanos teriam que aceitar fazer piada sobre a fé deles?

Outra coisa que merece destaque: ontem, 11/1/15, 4,5 milhões de pessoas participaram de uma manifestação contra o terrorismo em toda a França, de acordo com o Fantástico. Já o Correio Braziliense informou que foram 3,7 milhões de participantes na marcha. Coisa linda de se ver. Gente que defendia a sensatez e se solidarizou também com as famílias das 12 vítimas do atentado à revista Charlie Abdo. Muitos líderes mundiais participaram como a chanceler alemã Angela Merkel, o premiê britânico David Cameron, e o primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu. Além do presidente François Hollande. Muitos outros países também mandaram representantes como a Inglaterra, Jordânia, Palestina, Dinamarca, entre outros.

No mundo pós-moderno o diálogo deve prevalecer. Não se pode combater lápis, papel e borracha (uma charge) com arma. Abaixo as armas. A guerra é sempre burra. Pelo diálogo, pela coexistência, pelo equilíbrio, sensatez, respeito ao outro, tolerância. Eu acredito nas palavras de Hans Küng, teólogo, filósofo e professor suíço. Ele diz que se não houver paz entre as religiões não haverá paz no mundo. Isso é tudo.

Muitos defenderam os chargistas. Todo meu respeito às 12 pessoas mortas no atentado e às suas famílias. Eles foram vítimas, sim. Muitos usaram a frase “eu sou Charlie” em protesto contra o terror. Mas eu parei para pensar e tenho uma posição contrária. Eu não sou Charlie. Não concordo com os chargistas que fazem desenhos com piadas sobre a fé dos outros. Isso é desrespeito. Eles diziam que é liberdade de expressão. Para mim é desrespeito. Também não sou do lado do terror. Esses terroristas são assassinos e não defendem uma fé, não. São assassinos. Ambos os lados precisam rever suas posições.


Agora uma coisa ficou clara nesse episódio. A força que tem a comunicação de massa no mundo globalizado. Inquestionável o poder exercido pela imprensa. Uma charge, em uma revista, causou uma confusão no mundo. Um grande debate. Uma marcha em várias partes do mundo. Até aqui em Brasília teve gente que se manifestou publicamente. Por isso, os jornalistas devem exercer esse poder com muito critério, cautela, respeito, responsabilidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário